sexta-feira, 1 de abril de 2011

Questões poéticas de Fernando Burjato - Galeria Virgílio!

* Tatá Nascimento




 

Observei atentamente, mas estava regada de pouco tempo. Mesmo em intervalos, relendo suas proposições, pude perceber que o artista gosta de verdades e vontades, e gosta muito mais de afirmar a necessidade da teimosia. Tenho pra mim, que ele brinca com o irônico papel da arte que é o de permitir acessos ao fazer artístico ao mesmo tempo que  particulariza espaços. Acredito que essa é uma das mais importantes questões poéticas da obra do artista. É a exatidão do jogo da dúvida, é a não-fuga e imagem e intuição daquilo que se é, mais não é. Verdadeiramente, esse artista me pareceu um dos mais dialéticos da contemporaneidade, não por que o vejo como um apreciador do marxismo científico ou até mesmo por gostar de filosofar e demonstrar gosto pela metafísica, mas vejo claramente uma lógica de “não-objeto” de Ferreira Gullar nesses seus experimentos pictóricos, que embui a lógica da escrita e até brinca com a poesia de Guimaraes Rosa.  Burjato é um artista inovador e quem não gostaria de ter idéias como as dele? Sem resposta.
Eu já defendo a teses dos excepcionais, por razão lógica da escolha, da pesquisa e da determinação em distintas áreas do conhecimento, dialéticamente defendo transversalidades  e ações experimentais. Aqui quero falar que esse artista é excepcional e é ele quem se coloca como trânsito e caminho para uma possível solução da disputa vista como antagônica entre modernismo e pós-modernismo, pois assume a mais difícil das facetas: a afirmação da sua contemporaneidade sem deixar de ser honesto com seu gosto pela particularização que deixa resíduos e se envolve com um pós-moderno. As incursões dele está intrínsicamente ligadas a poesia, essa afirmação sim “começa pela aparência”. Gostei muito da presença das cores, não como obrigação, gostei de tudo que ele deixou alí na tela e fora dela, me senti representada principalmente quando ele se torna completamente grunge com coisas que “defende” um lado da contemporaneidade que é a linguagem despojada, tida como jovem e lí coisas que rezam sobre um cara realmente comprometido com o desposicionamento da arte. Ví as telas e concórdo com alguns blogs quando apresentam releases de Burjato falando que o artista coloca (ou deixa) “borrões” e ultrapassa bordas-barreiras  firmando degradês, áreas monocromáticas e coágulos/massa de tinta e que isso ressuscita na gente referências abstratas externas e também do concretismo, pois com ele consegui ver Lígia Pape e ví até referências poéticas do Neo-concreto, como algo de Parangolé.
Uma questão poética fundamental das obras, é a discussão da distancia e da proximidade, que não entendí completamente, mas me arrisco dizer o que sentí (e essa é a minha necessidade espiritual). Senti que Fernando Burjato esta dialogando com os questionamento tradicionais da pintura e que pra tanto, usa os não-objetos incomunicáveis para SIM se comunicar e apoiar aquilo que acredita, bem como o seu desejo de ser artista. Esse desejo artístico é forte e é ele quem dá formas ao que ninguém consegue falar, porque não tem que ser dito, até porque existem coisas ditas pelas não ditas não é?! E, é ele mesmo quem fala de não haver paradóxos nessa questão e portanto, se distanciar de influências e não reincidir na literatura trazendo-a como elementos de composição da tela ai sim seria antagônico.
Eu adquiri amorosidade a esse artista porque seus trabalhos mostram as contradições do vai e vem, do negativo e positivo, do bem e do mau na brisa da aproximação e do distanciamento necessário sob a expressão interessante “artifício de bloqueio” as interpretações esteticistas. Um recurso inteligível já que ele também escritor, soube criar módulos e peças com estruturas capazes de abarcar sua pesquisa artística e principalmente seus contos e prosas literárias.


* Tatá Nascimento é graduanda em artes visuais da Unicastelo e coordenadora estadual do CUCA da UNE/SP.


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